<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0"><channel><title><![CDATA[Lucas Goveia]]></title><description><![CDATA[Lucas Goveia]]></description><link>https://blog.lucasgoveia.com</link><generator>RSS for Node</generator><lastBuildDate>Mon, 04 May 2026 10:57:50 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://blog.lucasgoveia.com/rss.xml" rel="self" type="application/rss+xml"/><language><![CDATA[en]]></language><ttl>60</ttl><item><title><![CDATA[O que a maioria das pessoas ainda não entendeu sobre IA no desenvolvimento de software]]></title><description><![CDATA[Eu uso IA no meu processo de desenvolvimento praticamente o tempo todo. Às vezes para escrever código, às vezes para validar uma ideia, às vezes só para explorar possibilidades de implementação antes ]]></description><link>https://blog.lucasgoveia.com/o-que-a-maioria-das-pessoas-ainda-n-o-entendeu-sobre-ia-no-desenvolvimento-de-software</link><guid isPermaLink="true">https://blog.lucasgoveia.com/o-que-a-maioria-das-pessoas-ainda-n-o-entendeu-sobre-ia-no-desenvolvimento-de-software</guid><dc:creator><![CDATA[Lucas Goveia]]></dc:creator><pubDate>Tue, 17 Mar 2026 21:20:16 GMT</pubDate><enclosure url="https://cdn.hashnode.com/uploads/covers/6452aa2f4384316c64ca75d0/0be1ce35-0f63-43d2-bbaf-7f65dd6aab29.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Eu uso IA no meu processo de desenvolvimento praticamente o tempo todo. Às vezes para escrever código, às vezes para validar uma ideia, às vezes só para explorar possibilidades de implementação antes de eu decidir qual caminho faz mais sentido.</p>
<p>Meu uso inicial de IA (logo quando surgiu em 2022~2023) era basicamente algo que lembra muito a dinâmica da série dr. <em>House</em>. Na série, a equipe ajuda o House com o diagnóstico diferencial: alguém sugere uma hipótese, outro rebate, outra possibilidade aparece, eles vão eliminando caminhos no quadro até sobrar o que ainda faz sentido.</p>
<p>E eu usava a IA basicamente assim. Afinal, não gostava de tab-completes, tinha a sensação de que meu raciocinio era sequestrado para ler a sugestão da IA, que na maioria das vezes estava imprecisa ou errada.</p>
<p>E ainda uso assim IA, como brainstorming. Eu uso para levantar opções, testar linhas de implementação, confrontar abordagens e trazer ângulos que talvez eu não tivesse considerado de primeira, mas como o House, eu não terceirizo as decisões para a IA, a decisão final é minha.</p>
<p>Entretanto, isso começou a mudar quando os modelos ficaram melhores em contexto, planejamento e execução de tarefas mais longas. Com a chegada de modelos como o GPT-5.2-Codex e como Claude Opus 4.5, passou a ser plausível delegar para a IA uma grande parte da implementação, e em alguns momentos, até 100% do código de uma tarefa específica. Ela finalmente ficou boa o bastante para ser uma alavanca real.</p>
<p>Hoje, um bom desenvolvedor, usando IA direito, trabalha mais rápido. Muito mais rápido.</p>
<p>No cenário atual vejo muito medo entre os desenvolvedores de serem substituidos por agentes de codificação. Eu não acho que seja isso que está acontecendo.</p>
<p>Na prática, o maior ganho que eu vejo com IA não é pedir um sistema inteiro num prompt e receber um produto pronto. Esse imaginário do one-shot prompt é bonito em vídeo curto, mas não resiste ao contato com projeto real. O que funciona é outra coisa: usar a IA como um par de programação, alguém que digita rápido, explora alternativas rápido, prototipa rápido, refatora rápido, mas ainda precisa de direção, contexto e intervenção humana. Foi exatamente esse tipo de uso que o <a href="https://akitaonrails.com/2026/02/20/do-zero-a-pos-producao-em-1-semana-como-usar-ia-em-projetos-de-verdade-bastidores-do-the-m-akita-chronicles/">Akita descreveu</a> ao relatar um projeto levado do zero à produção em uma semana: não como mágica, e sim como engenharia disciplinada, com iteração, testes, small releases e supervisão constante. No relato dele, a lição central é clara: IA “programando sozinha” é receita para desastre; o que funciona é pair programming com o agente.</p>
<p>Esse é o ponto que eu acho que a maioria das pessoas ainda não entendeu. A IA acelera a execução, mas não elimina a necessidade de engenharia. Na verdade, quanto mais ela acelera, mais importante a engenharia fica.</p>
<p>Alguém ainda precisa ter responsabilidade sobre o que está sendo construído, sobre o que vai ser entregue em produção. Será um código quebrado, lento? Ou um código funcional com performance razoável?</p>
<p>E essa será a responsabilidade do desenvolvedor. Ele, trazendo uma analogia da construção civil, passará a trabalhar mais como engenheiro do que como pedreiro. Ele será o responsável por decidir o que entra e o que não entra, avaliar trade-offs, avaliar requisitos, entender por que uma solução aparentemente boa o suficiente hoje pode explodir em custo, complexidade ou se tornar impossível de manter no futuro.</p>
<p>Ferramentas como Lovable ou V0 da Vercel são ferramentas extraordinárias para MVP's, validações rapidas de ideias. Ela permite explorar mais caminhos, matar ideias ruins mais cedo e chegar numa versão utilizável sem o atrito de escrever tudo manualmente. Isso é valioso demais para ser ignorado.</p>
<p>Só que o jogo muda quando o software precisa durar.</p>
<p>Quando o produto precisa escalar, ser mantido por outras pessoas, acomodar novas regras de negócio, receber observabilidade, suportar incidentes, sobreviver a refactors, lidar com segurança, custos, concorrência, latência, consistência, legibilidade e evolução arquitetural, a conversa deixa de ser “como fazer funcionar” e passa a ser “como fazer isso continuar funcionando sem destruir o sistema no caminho”.</p>
<p>Eu percebo a incapacidade da IA de desenvolver sozinha uma solução escalável e minimamente sustentável justamente quando uso ela como pair programming. É impressionante a quantidade de atalhos, abstrações desnecessárias e redundâncias que ela cria. Muitas vezes eu preciso de várias iterações até chegar na implementação que eu realmente considero boa.</p>
<p>E esse é um ponto importante: muita coisa aí passaria despercebida por alguém não técnico ou sem experiência suficiente. O agente tem uma preocupação central: fazer o código funcionar. Não necessariamente fazer da melhor forma.</p>
<p>Agora imagine isso acontecendo em várias features, uma em cima da outra, com erros sendo construídos em cima de erros. É a receita perfeita para um desastre.</p>
<p>Se isso já é um problema no desenvolvimento tradicional, com devs humanos com vários débitos ténicos construídos ao longo dos anos. Imagine o mesmo cenário em um ambiente onde uma equipe com IA consegue entregar features duas ou três vezes mais rápido. A velocidade de entrega aumenta, mas a capacidade de julgamento não aumenta na mesma proporção, então a chance de acelerar na direção errada dispara.</p>
<p>Por isso eu não compro a narrativa de que estamos vendo a substituição do desenvolvedor. O que estamos vendo é a substituição de parte da digitação, de parte da implementação mecânica, de parte do trabalho braçal. Isso é muito diferente.</p>
<p>E existe ainda um problema mais profundo: a IA não entende de verdade as consequências do que está fazendo. Yann LeCun (vencedor do Prêmio Turing, ex-Cientista Chefe de IA da Meta) vem insistindo num ponto que considero relevante:</p>
<blockquote>
<p>Como pode um sistema planejar uma sequencia de ações se ele não pode predizer as consequências? Abordagens baseadas em prever a próxima palavra ou o próximo token não bastam, por si só, para produzir agentes amplamente capazes de raciocinar e planejar em contextos complexos do mundo real.</p>
</blockquote>
<p>Outro ponto que pouca gente percebe: conforme a geração de código fica mais barata, o gargalo sobe.</p>
<p>O problema deixa de ser “quem consegue implementar?” e passa a ser “quem consegue definir direito o produto?”, “quem consegue revisar com critério?”, “quem consegue fazer QA de verdade?”, “quem consegue evitar que o sistema apodreça por dentro enquanto continua entregando por fora?”.</p>
<p>A IA pode aumentar muito a produção de código, mas não elimina a necessidade de clareza de produto, revisão técnica, validação e controle de qualidade. Na verdade, ela aumenta a importância dessas coisas.</p>
<blockquote>
<p>"Ah, mas isso vai ser resolvido com modelos cada vez mais inteligentes.”</p>
</blockquote>
<p>Eu não compro essa ideia. Acho precipitado assumir que os modelos vão continuar melhorando em ritmo acelerado a ponto de resolver esses problemas sozinhos. A própria indústria já discute limitações dos métodos atuais e busca outros caminhos para continuar avançando.</p>
<p>Pode ser que aconteça um breakthrough nos próximos anos. Mas esperar, que os modelos atuais fiquem cada vez mais inteligentes de forma exponencial e infinita é , hoje, muito mais crença do que análise.</p>
<p>Então, para mim, a conclusão é muito menos dramática e muito mais útil.</p>
<p>IA ajuda, sim. E ajuda muito.</p>
<p>Ela acelera exploração, implementação, refatoração, documentação, testes e prototipagem. Ignorar isso é negar a realidade.</p>
<p>Mas desenvolvimento de software continua sendo um processo que precisa ser guiado.</p>
<p>Guiado para evitar que soluções rápidas virem problemas sistêmicos..<br />Guiado para manter simplicidade.<br />Guiado para garantir que rapidez não vire desordem.<br />Guiado para que a produtividade de hoje não se transforme na dívida técnica de amanhã.</p>
<p>E esse tipo de guia não vem de prompt mágico. Vem de experiência.</p>
<p>Vem de anos vendo o que funciona e o que não funciona.<br />Vem de entender arquitetura e suas consequências.<br />Vem de saber quando abstrair e quando não abstrair.<br />Vem de perceber antipattern cedo.<br />Vem de escolher bem onde usar a IA e onde freá-la.<br />Vem de saber que “funcionou” não é o mesmo que “ficou bom”.</p>
<p>Na era da IA, o diferencial do desenvolvedor não será digitar código na velocidade da luz.</p>
<p>O diferencial será saber pensar.<br />Saber decidir melhor.<br />Saber revisar melhor.<br />Saber simplificar melhor.<br />Saber assumir responsabilidade.</p>
<p>Para mim, esse é o ponto que muita gente ainda não entendeu: a IA não torna o desenvolvedor irrelevante. Ela amplifica o impacto de um ótimo desenvolvedor.</p>
]]></content:encoded></item></channel></rss>